Neste artigo iremos refletir sobre o trabalho de alguns ourives importantes que marcaram o mundo da joalharia até aos dias de hoje. De modo a conhecermos o significado da joalharia moderna e contemporânea é necessário compreendermos a sua história e os seus mestres importantes; iremos começar por falar sobre Efthimios Zolotas.

De forma a entender o percurso de Efthimios Zolotas, é necessário perceber o contexto em que o joalheiro se inseriu. A Grécia é o berço da civilização que deu à luz tradições e técnicas antigas e também importantes mestres ourives. A produção de uma joia grega – desde a conceção ao design – estava, desde sempre, conectada à herança cultural grega.

Efthimios Zolotas, filho de comerciantes e alfaiates, tomou uma importante decisão de rumar a França com o objetivo de realizar o seu sonho de ser joalheiro. No tempo que esteve em França, estudou e trabalhou com um mestre artesão, onde adquiriu a experiência em criar desenhos requintados e decide regressar à Grécia para abrir a sua primeira loja em Atenas em 1895. Mais tarde, em 1901, conseguiu estabelecer a sua loja na famosa 5º avenida da cidade de Nova York. Nas décadas seguintes os seus clientes eram maioritariamente compostos pela elite grega, desde a família real grega, aos empresários cultos, ricos e exigentes. 1 diamante hope

Figura 1 Efthimios Zolotas e esposa. Fonte: https://www.zolotasjewelry.com/content/history

Em 1950, a marca Zolotas ramifica-se para os mercados internacionais, onde a marca Casa Zolotas começa a adquirir um estilo muito característico que se prendia pela fusão magnífica de estilos modernos e antigos, jóias de alto teor – 22 e 24 Ct (quilates) – que eram trabalhadas usando técnicas e motivos tradicionais, com um toque contemporâneo. Zolotas escolheu utilizar símbolos sagrados para o panteão grego, manifestando-se agora em joias requintadas com figuras de leão, cobra, carneiro e touro. Desde a década de 1950, que foi do interesse dos ateliês Zolotas, a recuperação das antigas técnicas de ourivesaria, como a técnica de Hefesto – a arte do martelo e do cinzel – utilizada principalmente em joias de ouro moldadas à mão. O metal era colocado sobre uma superfície lisa e depois “batia-se” com um martelo de borda arredondada até conseguir o efeito ondulado.

A técnica da granulação, também recuperada, em que pequenas esferas de ouro se fundem sobre umas superfícies metálicas criando padrões únicos e belos. E a técnica da filigrana, que consiste em tecer finos fios de ouro juntos, acrescentado volume às joias.
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Figura 2 Colar Zolotas. Fonte: https://www.zolotasjewelry.com/content/history

Em 2009, com a colaboração de Nisa Chevènement – escultora – foi elaborada uma peça magnífica que conta com figuras antropomórficas alongadas que se unem. Estas figuras apresentam formas hieráticas e eternas do mar Egeu, como se tratasse de uma homenagem deste povo. Esta tratou-se de uma coleção limitada de jóias que tratava de capturar e imortalizar a civilização grega.

A marca manteve o carácter familiar, sendo esta uma chave para o sucesso, caminhando em direção ao legado e tradição Zolotas. Em 2009, George Papalexis tornou-se o novo diretor artístico, após a sua formação de joalheiro completa em Paris.

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Figura 3 Colar Zolatas e Nisa Chevènement. Fonte: https://www.zolotasjewelry.com/content/history

Outro ourives a realçar é David Webb, um dos joalheiros americanos mais conhecidos e importantes. Proveniente de uma zona rural da Carolina do Norte, foi introduzido desde novo no mundo da joalharia, começando aos 9 anos a trabalhar com metais nobres, tornando-se aprendiz na fábrica de seu tio.

Quando completou 17 anos, decidiu mudar-se para Nova York com a intenção de continuar o seu trabalho de sonho. Durante a sua formação, David Webb questionou-se diversas vezes sobre o seu futuro, visto que era apaixonado por arquitetura e joalharia. I had a tremendous feeling of art in me. I wanted to be an archaeologist, a ceramicist, or a jeweller. Jewellery won out.” 

Quando completa os seus 23 anos, abre o seu negócio na esquina de Diamond District em Nova York. Devido à sua criatividade na criação de peças conseguiu atrair imensa atenção, principalmente de lojas como Bergdorf Goodman. Mais tarde, consegue chamar a atenção das mulheres mais importantes de Nova York – conhecidas por andarem nas suas limusines de Upper East Side, até às lojas de Webb com o propósito de adquirirem os tesouros da sua loja.

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Figura 4 David Webb. Fonte: https://www.davidwebb.com/pages/about

É possível observar como o design das peças de David Webb são caracterizados pela sua ousadia e pelas fortes cores que este aplica a cada obra. É possível observar como as suas influências de infância passadas no sul a explorar, o influenciaram na construção do desenho de cada peça de joalharia. Grande parte da sua inspiração é adquirida de grandes mestres, como por exemplo Fabergé.

O seu trabalho é facilmente reconhecível pela forma recorrente como utiliza temáticas de animais nas suas peças, exemplo disso foi a sua primeira pulseira inspirada num monstro marinho indiano. Esta pulseira de platina e ouro, para além de ter a forma de uma criatura marinho, carrega esmeraldas talhadas em cabochon e diamantes de corte circular. A pulseira foi concebida em 1957 e foi vendida a Elizabeth Taylor – que era conhecida pela utilização frequente de ouro amarelo, diamantes e pedras preciosas – ficando a pulseira conhecida como Elizabeth Taylor Bracelet. Alguns dos animais utilizados como inspiração eram sapos, cavalos, macacos, cobras e elefantes. O seu trabalho também é reconhecível pela tendência para as formas arquitetónicas e geométricas, passando sempre a ideia que as mulheres são poderosas e merecem utilizar peças que remontem à mais bela história.

Uma das suas ambições era pegar em algo novo e acrescentar-lhe um toque antigo, como se tratasse de um toque arqueológico. Para tal, analisou a composição do ouro e descobriu ligas que continham a patina do ouro antigo. As suas viagens frequentes ao Metropolitan Museum of Art, eram conhecidas por aproveitar os passeios para estudar objetos de ouro dos incas, Síria, Turquia e artefactos egípcios que foram desenterrados nas tumbas de Tutancâmon, com a intenção de os poder remodelar na sua oficina.

David Webb infelizmente morreu tragicamente em 1975 – com 50 anos de idade – devido a um cancro no pâncreas, deixando um legado de joias únicas e complexas, deixado ao cuidado de Nina Silberstein e a sua família. Ficou conhecido como o joalheiro moderno, com peças únicas, especialmente esculpidas em figuras antropomórficas de enorme importância.
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Figura 5 Elizabeth Taylor Bracelet. Fonte: https://www.davidwebb.com/products/the-elizabeth-taylor-bracelet?_pos=2&_sid=36b2c5c9c&_ss=r

Pierre Sterlé destaca como um dos nomes da mais visionária joalharia do século XX, cujas técnicas, materiais e encanto ainda hoje são proclamadas. Pierre Sterlé, nascido em 1905 numa família de banqueiros, tornou-se órfão bastante jovem devido à morte de seu pai no decorrer da primeira guerra mundial. Posteriormente foi acolhido pelo seu tio, o joalheiro Maynier-Pinçon, na rue de castiglione, em Paris, tendo sido através deste que Pierre é introduzido na joalharia, iniciando assim a sua vocação.

À data de 1934, Sterlé abre o seu primeiro estabelecimento na rue Saint-Anne, com o contributo de fortes ajudas por parte de casas como Chaumet e Boucheron para as quais o artista já desenhava joias. No entanto, em 1943 altera a localização do estabelecimento para a Avenue de l’Opera permitindo-lhe assim alcançar uma clientela elitista, detentora de encomendas particulares e únicas, permitindo ao artista seguir a sua estética. Ao leque da clientela podem-se juntar os nomes de Colette, Edwige Feuillère, Sydney Bechet, entre outros.

 

5 Aurora AustralisFigura 6 Pierre Sterlé. Fonte: https://gioiellis.com/en/the-pierre-sterle-rematch/
No âmbito estilístico das peças, Sterlé não se considerava um desenhista, pelo que era através de artesãos contratados que o joalheiro traduzia os seus designs, sendo o seu estilo caracterizado por ser altamente reconhecível, confecionando estampas que remetem a motivos da natureza, muitas vezes com a representação de animais como pássaros, penas e flores. Na incrementação de pedras, o artista maioritariamente escolhia pedras de cores finas, onde mesclava turquesas, ametistas, diamantes e ouro amarelo.

Sterlé é também detentor de algumas assinaturas estilísticas, como é exemplo o ‘cheveux d’ange’ ou ‘cabelo de anjo’, sendo esta caracterizada como uma técnica própria, que envolvia a tecelagem e consequente trança de fios de ouro, em curtas secções de corrente densa, permitindo criar franjas nas joias. A forma perfecionista como produzia as suas técnicas, tornaram-no reconhecido por trabalhar o ouro como mais nenhum joalheiro ousou fazer, quase num deslumbre de engenharia, mesclando a assimetria e influência barroca que contrastam com formas geométricas e arabescos.

De forma a concluir é possível observar como estes mestres foram responsáveis pelo desenvolvimento da joalharia, devido a sua criatividade e técnicas. Para alem disso, tratam-se de peças de joalharia intemporais, visto que apresentam inspirações na antiguidade com um toque no futuro.

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Figura 7 Ruby and Diamond Brooch, Sterlé. Fonte: Christie’s.