A Leiloeira Santo Eloy abraça a exposição “D. Maria II de Princesa brasileira a Rainha de Portugal” que está presente no Palácio da Ajuda com a participação do Museu da Presidência da República e do Museu Nacional de Arte Antiga. D. Maria II foi uma figura importante na evolução da cultura, educação e obras públicas no contexto português, sendo importante dar a devida atenção a esta exposição.

D. Maria II é uma figura de grande importância para a nossa cultura, nasceu numa altura de grande instabilidade no reino português, a saber: as reviravoltas políticas que vieram com o Liberalismo. Em toda a sua vida e reinado essas “reviravoltas” estiveram presentes.

D. Maria da Glória nasceu no ano de 1819, um ano antes da Revolução Liberal Portuguesa. Nasceu no Brasil e lá viveu até aos 7 anos de idade quando veio para Portugal, para tornar-se rainha. Durante a sua infância, D. Maria, presenciou a rivalidade entre seu pai e seu tio – liberais e absolutistas, e, por causa disso realizou esponsais com o seu tio D. Miguel, em 1826. No entanto este casamento acabou por não se realizar.

Maria II reinou durante os anos de 1834 a 1853 e havia um aspeto ao qual ela dedicou maior atenção – a educação (o que lhe valeu o cognome de A Educadora). Assim, como educou os seus filhos com todo o esmero e cuidado, também se preocupou em dar à nação o que pudesse proporcionar em conhecimento. A Rainha fundou diversas escolas primárias e secundárias fundou algumas instituições como as Faculdades de Medicina de Lisboa e Porto, a Escola Politécnica de Lisboa e o Conservatório Nacional de Música, entre outras.

Casou em 1835 com Augusto de Leuchtenberg, mas que morreu logo em março do mesmo ano. D. Maria casou, pela segunda vez, com Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha. O casamento realizou-se em 9 de abril de 1836 e dele nasceram onze filhos. A 15 de novembro de 1853, treze horas após o início do trabalho de parto do natimorto [1]infante Dom Eugénio, o seu 11.º filho, Dona Maria II morreu, aos 34 anos de idade. O anúncio da morte foi publicado no Diário do Governo de 16 de novembro de 1853.

Na presente exposição mencionamos uma série de obras de arte das quais iremos analisar e realizar algum comentário.

Destacamos nesta exposição a Coroa Real portuguesa concebida pelo mestre ourives António Gomes da Silva, em 1817. Esta coroa composta por ouro, prata, seda e algodão foi elaborada para a coroação de D. João VI (1767-1826) no Rio de Janeiro.

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Figura 1 Coroa Real. António Gomes da Silva. 1817. Rio de Janeiro. Fonte: https://www.pinterest.pt/pin/782219029004061184/

Devido a D. João IV ter entregue em 1640 a coroa real à Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa – tornando esta a guardiã oficial da monarquia portuguesa – os reis de Portugal não ostentavam a coroa real na cabeça. Sendo assim, era habitual nos retratos de D. Maria II ver a coroa e os atributos reais colocados por cima de uma almofada, a seu lado.

No retrato de D. Maria II de John Simpson é possível observar a coroa real portuguesa a seu lado, assim como o Cetro liberal concebida pelo ourives William Clutton/ David Cox, na oficina Stor & Mortimer em 1828. Este Cetro foi elaborado em Londres e apresenta uma composição única de ouro com um monograma “M II” coroado. O centro é representado como um símbolo do poder real da jovem D. Maria, que apesar da sua conceção ser em 1829, apenas foi oferecido a D. Maria no verão de 1831 durante uma estadia em Londres.

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Figura 2 Retrato de D. Maria II. Jonh Simpson.
1837.Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Queen_Maria_II_by_John_Simpson.jpg

Na composição do cetro podemos observar um grifo, representando o símbolo da casa real de Bragança, um livro, nomeadamente a “Carta Constitucional” que assentava sobre a cabeça do Grifo, e por fim, uma coroa real assente sobre o livro.

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Figura 3 Cetro. William Clutton/David Cox. 1828. Londres. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_II_de_Portugal#/media/Ficheiro:Sceptre_of_the_Carta_Constituicional.jpg

Destacamos ainda a pulseira relógio de ouro, esmalte, diamantes e metal, que remonta à primeira metade do século XIX. Trata-se de uma pulseira que possuía cinco placas retangulares convexas e um medalhão oval com uma tampa – onde se insere o relógio. A peça é revestida por esmalte azul e decorada como motivos vegetalistas cinzelados sobre o ouro, com pequenos diamantes. As cinco placas estão articuladas entre si por argolas estando divididas em três faixas. A faixa central, como foi referido anteriormente encontra-se cinzelada com motivos vegetalistas. No entanto, o medalhão está decorado com um ramo de flores ao centro, sendo este contornado por uma moldura de meia cana, apresentado a mesma decoração vegetalista. O relógio apresenta maquinismo de modelo francês, com numeração árabe onde os ponteiros apresentam forma de pêra.

A pulseira relógio pertenceu à coleção de D. Maria II, e pode ser considerado um adereço feminino pouco comum na primeira metade do século XIX.

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Figura 4 Pulseira com Relógio. 1º metade do século XIX. Paris.

Outra peça que merece destaque é a pulseira de cristal de rocha, ouro e diamantes, proveniente de Paris, na 1ª metade do século XIX. Esta pulseira é composta por um medalhão ao centro de forma circular e quatro divisões retangulares e côncavas de cristal de rocha, que se encontram inseridos em molduras de ouro.

O medalhão central é composto por ornatos em forma de pluma cravejados de diamantes. As peças articulam entre si através de dobradiças que se encontram decorados em forma de “nós sabaudos.”

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Figura 5 Pulseira. 1ª metade do século XIX. Paris.

Uma das peças que mais se destacou ao longo da exposição foi uma salva de prata dourada portuguesa de finais do séc. XV e início do séc. XVI. Trata-se de uma salva manuelina cinzelada e gravada com decoração tardo- gótica, nomeadamente com alguns episódios do Antigo Testamento. Apesar da primeira aparência ser exaustiva do ponto decorativo, os episódios encontram-se organizados e individualizados de forma a serem entendidos. No centro da salva é possível observar as inicias “MF”, correspondentes à inicias de D. Maria II e D. Fernando II, que foram colocadas posteriormente sobre o que anteriormente seria o escudo português.

Esta salva pertencia ao Palácio das Necessidades, nomeadamente às paredes do gabinete do rei D. Fernando II. Mais tarde, em 1931, foi transferido para o Palácio da Ajuda, fazendo parte do conjunto de pratas de aparato pertencentes à Casa Real Portuguesa.

5 Aurora Australis

Figura 6. Salva de aparato com as iniciais "MF". 1495-1525. Portugal

Por fim, o Cofre de Jean Baptiste- Claude Odiot proveniente de França, cerca de 1817.

Este cofre ostenta uma forma retangular assente sobre quatro pés que apresentam forma de pombas de asas abertas. O cofre apresenta-se com motivos decorativos em prata dourada sobre um fundo de prata mate.

Sobre o plinto retangular, podemos observar um grupo escultórico em vulto, nomeadamente um par de cúpido, que se encontram a dobar o fio numa roca, frente a frente. Este cofre foi encomendado por D. João VI para os aposentos dos príncipes D. Pedro e D. Leopoldina, no Palácio de São Cristóvão.

De forma a concluir, enaltecemos o papel importante que D. Maria II deteve durante o seu reinado sobre o campo da educação, mas particularmente no campo das artes e obras publicas. Esta exposição é bastante importante pois leva-nos a seguir uma narrativa histórica que se seguem por doze núcleos, sendo possível observar peças juntas que nunca mais iremos ver juntas numa exposição. Esta exposição faz-nos viajar no tempo ao ver as peças no seu lugar, pela curadoria e pelo som ambiente. Não perca esta exposição que estará a decorrer no Palácio da Nacional da Ajuda até o dia 31 de outubro.

6 Hope Spinel

Figura 7. Cofre. Jean- Baptiste- Claude Odiot. 1817. França